Repórter e fotógrafo falam sobre a série de reportagens dos projetos apoiados pela Dana na Rede Parceria Social
O fotógrafo e a assistente social Patrícia, em Rio Grande Imagem: Manuela Colla
Desde o início de 2009, a Dana uniu-se ao governo do Estado do Rio Grande do Sul para fazer parte da Rede Parceria Social, patrocinando projetos de Responsabilidade Social e/ou Ambiental em todo o Rio Grande do Sul.
A Rede funciona de forma bastante simples: as associações se inscrevem através de editais no final do ano. Cada edital, um por área de atuação, é realizado por uma âncora – uma entidade com reconhecido trabalho social que acompanha a seleção e o andamento dos projetos. Nos projetos apoiados pela Dana em 2009, esta âncora foi a Rede La Salle. A escolha dos contemplados envolveu também as empresas apoiadoras, Secretaria de Justiça e Desenvolvimento Social (SJDS) e Conselho Estadual de Assistência Social.
Escolhidos os projetos, as empresas do setor que participam da Rede Parceria Social aplicam 25% dos recursos necessários para sua execução e o governo completa os 75% restantes com renúncia fiscal do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Durante um ano, os projetos são acompanhados de perto. A Dana, numa iniciativa própria, designou uma repórter e um fotógrafo para visitar os sete projetos patrocinados pela empresa em 2009.
A repórter Manuela Colla e o fotógrafo Marcos Massa começaram a visitar as sedes onde aconteciam os projetos no início de 2009, e ao longo do ano, viajaram por diversas cidades do Rio Grande do Sul para fazer a cobertura do seu andamento e eficácia dos investimentos. O primeiro projeto visitado foi o “Nutrivida”, uma padaria para jovens da vila Orfanotrófio, de Porto Alegre. “A reforma da padaria, que estava em condições precárias, com problemas no piso, sem telas na janela e com equipamentos antigos, estava começando. O mais interessante desta matéria foi seu complemento: voltar à vila Orfanotrófio no final de 2009 e ver o quanto aqueles jovens tinham desenvolvido seu senso de empreendedorismo, criado um produto inédito e o fato de se sentirem responsáveis e orgulhosos por ele. Além de ver que o projeto deu tão certo que eles estavam lotados de entregas do ‘Orfolinho’ (muffin de banana) para o final do ano”, relata a repórter. Para o fotógrafo, a diferença notou-se até na postura dos jovens diante da câmera. “Eles estavam mais confiantes, menos tímidos, acredito que porque era visível o maior entrosamento entre eles – também conosco – e o aumento da autoestima deles por fazer parte de um projeto que deu certo. Isso transparece nas fotografias”, contou.
Marcos Massa fotografa Rio Grande Imagem: Manuela Colla
Uma experiência marcante para os dois foi viajar para cidades bastante distantes da Capital gaúcha como Rio Grande e Frederico Westfalen (a primeira fica a 317 km de Porto Alegre e a segunda, a 450 km). Em Rio Grande, acontece o projeto “Culinária Criativa”, na Escola de Orientação Profissional Assis Brasil, que fica na Vila Santa Rosa. Ali, três vezes por semana cerca de 30 alunas de diversas idades tinham aulas teóricas e práticas sobre reaproveitamento de alimentos e empreendedorismo. “Chegamos às 6 horas da manhã e a presidente e a assistente social do projeto estavam nos esperando na rodoviária. Como a aula só iniciava às 8h, elas nos levaram para conhecer a zona portuária de Rio Grande e outros pontos turísticos. A acolhida que recebemos foi muito carinhosa – tanto que, mesmo depois de terminarmos a reportagem, elas ainda nos levaram para conhecer o porto, os casarios antigos da cidade e até mesmo a praia do Cassino. Tudo isso com muito boa vontade, o que demonstra a paixão delas pelo que fazem e também a valorização do nosso trabalho. Foi enriquecedor e inesquecível”, ressalta o fotógrafo.
Em Frederico Westfalen, a viagem foi mais longa: os dois passaram 10 horas num ônibus intermunicipal, indo direto para a zona rural da cidade, onde estão montadas as duas padarias. “Enquanto o coordenador do projeto nos levava às zonas mais afastadas da cidade, entendemos o contexto social do projeto: a padaria funcionava no centro da pequena cidade, mas as mulheres não tinham condições financeiras para pegar ônibus todo dia, por isso, foram construídas duas pequenas padarias nas vilas que se formaram em terrenos que, antes, eram da prefeitura e foram ocupados pela população de baixa renda”, explica Manuela. Ao chegar lá, se depararam com historias de famílias matriarcais, de mulheres fortes que cresceram em famílias de agricultores e viram que as condições para se viver disso são cada vez mais difíceis hoje em dia.
A repórter com as alunas do projeto "Doces Saberes" Imagem: Marcos Massa
Para Manuela, ir ao interior do Estado foi uma oportunidade única em sua carreira como jornalista. “Viajamos muitas horas de ônibus para chegar até estas duas cidades e, para mim, acostumada às reportagens e entrevistas rápidas, por telefone, estas duas viagens representaram a oportunidade de conhecer realidades diferentes e ver com os próprios olhos como estava o andamento das padarias e conversar com as entrevistadas ao vivo, o que faz toda a diferença em uma matéria e é uma coisa cada vez mais rara no jornalismo, atualmente”, disse.
Foi num dia de chuva intensa que os dois visitaram a padaria do projeto “Doces Saberes”, que fica na Vila Kephas II, em Novo Hamburgo. Nem o tempo ruim inibiu as alunas do projeto, que lotaram a aula naquela tarde com alegria e companheirismo. A responsável técnica pelo projeto acompanhou toda a reportagem de perto, e todas as alunas fizeram questão de ser entrevistadas, tamanha alegria que sentiam por estarem participando do projeto. “A maioria das participantes sobrevivia catando papel na rua e estavam se organizando para montar sua cooperativa e vender os pães e massas que aprenderam a fazer reaproveitando os alimentos. Muitas já estavam sobrevivendo da venda dos produtos que faziam em casa, e percebemos como elas se sentiam importantes diante dessa nova realidade em suas vidas”, relata a repórter.
A alegria das alunas da Maria Mulher, em Porto Alegre Imagem: Marcos Massa
Outra experiência marcante foi a visita à ONG Maria Mulher, na Vila Cruzeiro, a maior de Porto Alegre, capitaneada pela líder comunitária Maria Noelci Teixeira Homero há 22 anos. O projeto “Cidadania Positiva” visava capacitação para mulheres que convivem ou são portadoras do vírus HIV. “Pensamos bastante em uma solução caso as entrevistadas não quisessem ser fotografadas, por se tratar de um assunto delicado. Porém, nos deparamos em um lugar onde esse assunto é tratado com naturalidade, e nenhuma das mulheres teve problema em ser retratada”, afirma o fotógrafo. “Foi uma surpresa muito boa, porque tivemos a oportunidade de conhecer aquelas mulheres guerreiras, que lidam com suas dificuldades bravamente e que, ao mesmo tempo, demonstraram confiar na gente a ponto de se deixarem fotografar sem receios e contar suas histórias de vida”.
Para a repórter, passar uma tarde ouvindo as histórias de vida daquelas mulheres foi uma experiência única. “Nem tudo o que um jornalista ouve entra numa matéria. Muitas vezes, as pessoas sentem a necessidade de dividir suas histórias de vida, suas vivências, e isso acaba enriquecendo o texto, mesmo que elas não sejam totalmente relatadas – ficam nas entrelinhas e contextualizam uma realidade diferente daquela com que lidamos no nosso cotidiano”, afirma. “Nessas horas, tenho a convicção de que jornalismo é a melhor profissão do mundo – ouvir essas histórias é de uma riqueza que não tem fim”.
No final da experiência, fica a certeza de que foi uma série de matérias inesquecíveis. “A melhor coisa de se trabalhar com projetos sociais é que vamos fazer o nosso trabalho e, geralmente, conviver com essas pessoas transforma nossas vidas na medida em que nos faz olhar para as nossas próprias vidas de forma diferente. É muito difícil não sair modificado de uma experiência presencial, olho no olho, tão marcante, como todas estas que vivemos”, disse o fotógrafo.